CENAS EM RESTAURANTES NA LITERATURA UNIVERSAL
– Agora, vamos almoçar – ordenou Kerry, caminhando sem destino no meio do grupo. – Vamos, Amory! Mexa-se e se mostre prático! Vamos tentar, primeiro, o melhor hotel – prosseguiu. – Depois, os outros, sucessivamente.
Dirigiram-se, pelo deck, ao hotel mais imponente que lá havia, e ao entrar no restaurante espalharam-se em torno de uma mesa.
– Oito drinques, um sanduíche e uma sopa juliana – ordenou Alec. – Comida para um. Veja o que o resto do pessoal quer.
Amory comeu pouco, tendo sentado em uma cadeira de onde pudesse ver o mar e sentir-lhe o embalo. Quando terminou o almoço, eles puseram-se a fumar tranquilamente.
– Quanto foi a conta?
Alguém a examinou.
– 8,25 dólares.
– Exploração vergonhosa. Vamos pagar 2 dólares e dar 1 dólar de gorjeta ao garçom. Kerry, reúna os trocados.
O garçom se aproximou, e Kerry, com ar grave, deu-lhe 1 dólar, jogou 2 dólares sobre a conta e se afastou. Dirigiram-se calmamente para a porta, seguidos por um momento pelo desconfiado Ganimedes.
– Há um engano aqui, meu senhor.
Kerry apanhou a conta e examinou-a com olhos críticos.
– Não há engano algum – respondeu, balançando gravemente a cabeça, e, rasgando-a em quatro pedaços, entregou-a ao garçom, tão perplexo que permaneceu imóvel, atônito, enquanto eles saíam.
– Será que ele não vai mandar alguém atrás de nós?
– Não – disse Kerry. – Durante um momento, vai pensar que somos filhos do proprietário ou coisa que o valha; depois, vai olhar de novo a conta e chamar o gerente. Enquanto isso...
Deixaram o automóvel em Asbury e seguiram de bonde para Allenhurst, onde examinaram os institutos de beleza lotados. Às quatro da tarde, tomaram refrescos numa casa de lanches, pagando dessa vez uma porcentagem ainda menor do preço total; algo a respeito da aparência e do savoir-faire da turma fez com que nada de grave ocorresse.
– Como vê, Amory, somos socialistas marxistas – explicou Kerry. – Não acreditamos na propriedade privada e a estamos submetendo a um grande teste.
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Este lado do paraíso [recurso eletrônico] / Francis Scott Fitzgerald; tradução Brenno Silveira. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Best Bolso, 2016.