Trocando o açúcar pelo sal — G. K. Chesterton




CENAS EM RESTAURANTES NA LITERATURA UNIVERSAL

A manhã já estava na metade, e ele ainda não tomara café; restos de outros cafés da manhã estavam sobre a mesa para lembrá-lo de sua fome. Acrescentando ovos pochés ao seu pedido, distraidamente mexeu o açúcar no café, pensando o tempo todo em Flambeau. Recordou como Flambeau escapara uma vez usando um par de tesourinhas de unhas e outra vez por uma casa em chamas; uma vez tendo de pagar por uma carta sem selo e noutra conseguindo que as pessoas olhassem ao telescópio um cometa que poderia destruir o mundo. Valentin julgava seu cérebro de detetive tão bom quanto o do criminoso, o que era verdade. Mas percebia plenamente a desvantagem: “O criminoso é o artista criativo; o detetive, apenas o crítico”, murmurou com um sorriso amargo. Devagar, ergueu a xícara aos lábios e largou-a muito rápido. Havia colocado sal no café.

Olhou para o pote do qual veio o pó prateado; com certeza era um açucareiro; sem dúvida, tão apropriado para o açúcar quanto uma garrafa de champanhe para o champanhe. Ficou imaginando por que serviriam sal no açucareiro. Olhou para ver se havia frascos mais ortodoxos. Sim, havia dois saleiros quase cheios. Porém, havia uma particularidade no condimento dos saleiros. Ele experimentou; era açúcar. Depois olhou em volta com revigorado ar de interesse pelo restaurante, para ver se havia quaisquer outros traços daquele peculiar gosto artístico que coloca açúcar no saleiro e sal no açucareiro. Exceto as manchas esquisitas de um líquido escuro no papel de parede branco, o lugar todo parecia comum, alegre e limpo. Tocou a sineta para chamar o garçom.

Quando o funcionário se aproximou apressado, com o cabelo desarrumado e um olhar meio turvo já tão cedo, o detetive (com admiração pelas formas de humor mais simples) pediu para ele experimentar o açúcar e ver se o produto estava à altura da reputação do hotel. Como resultado, o garçom bocejou de repente e despertou.

– É costume fazer essa brincadeira delicada com os fregueses todas as manhãs? – perguntou Valentin. – Nunca perde a graça trocar o açúcar pelo sal?

Quando entendeu a ironia, o garçom assegurou gaguejando que o estabelecimento com certeza não tivera essa intenção, devia ser o mais curioso dos enganos. Pegou e observou o açucareiro; pegou e observou o saleiro; o rosto cada vez mais confuso. Por fim, ele se desculpou de forma abrupta e saiu rápido. Segundos depois, retornou com o dono, que também examinou o açucareiro e depois o saleiro com ar não menos confuso.

De repente, o garçom balbuciou uma torrente de palavras:

– Eu tô ajando – gaguejou ansioso –, eu ajo que foi aqueles dois badres.

– Que dois padres?

– Os dois badres – explicou o garçom – que jogaram soba na parede.

– Sopa na parede? – repetiu Valentin, com a sensação de que aquilo devia ser uma singular metáfora italiana.

– Sim, sim – reiterou o garçom empolgado, apontando as manchas escuras no papel de parede branco –, bem ali na barede.

Valentin olhou com dúvida para o dono, que veio em seu socorro com o relato completo.

– Sim, sim. É mesmo verdade, mas eu não imaginava que tinha algo a ver com o açúcar e o sal. Dois padres vieram aqui muito cedo, assim que os postigos foram abaixados, e tomaram sopa. Os dois eram muito calmos, pessoas respeitáveis; um deles pagou a conta e saiu; o outro, o vagão mais lento do comboio, ficou mais um tempinho juntando as coisas. Mas enfim foi saindo. Pois não é que, no instante antes de sair para a rua, ele ergueu a tigela ainda com sopa pela metade e, de propósito, jogou o líquido na parede? Eu estava no salão de trás, e o garçom também; só tive tempo de correr para cá e encontrar a parede respingada e o estabelecimento vazio. Isso não causou nenhum dano em especial, mas foi um atrevimento desconcertante. Eu tentei alcançar os homens na rua, mas eles já estavam muito longe; só reparei que dobraram na esquina com a Carstairs Street.

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Chesterton, G. K. (Gilbert Keith), 1874-1936

A inocência do Padre Brown / G. K. Chesterton ; [grupo de tradução, Beatriz Viégas-Faria (org.)... et al.]. - Porto Alegre, RS : L&PM, 2011.